O RETORNO DE SATURNO
O que fazer quando a tela do telefone trinca, o cinto arrebenta, você perde o horário, o transporte, o compromisso e uma dita amizade de longa data? Você se pergunta: é Deus? Destino? Karma? "Eu preciso me benzer"? Não, é apenas Saturno, o senhor do tempo, anunciando sua chegada exatamente no ponto onde estava quando você nasceu.
Muito se fala sobre o retorno de Saturno, criando-se míticas e tabus em torno desse tão esperado evento na vida, ainda mais quando se tem esse planeta proeminente na carta natal, seja ele no ascendente, um Stellium em conjunção ou aspecto a Saturno e até mesmo sua regência no mapa, com Capricórnio ou Aquário na primeira casa. E, de fato, ele opera como uma foice, ou até mesmo uma faca de dois gumes, que lima, limpa e abre espaço para tudo aquilo que está alinhado com a verdade interior da pessoa nativa, seja no amor, ou na dor. Sem dó, muito menos piedade.
Penso no quadro do pintor espanhol Francisco Goya, Saturno devorando um filho; a emblemática imagem assombrosa de uma silhueta humanoide nua, grisalha, com seus olhos esbugalhados de espanto, loucura e desespero, em um fundo preto sem cenário ou contexto, evidenciando a barbárie do Cronos que devora um corpo jovem que sangra. Porque é isso o que Saturno faz, ele devora um corpo jovem que sangra, e esse processo é imprescindível para o alinhamento com a própria jornada de vida, porque a passagem de Saturno é a prova cabal da passagem do tempo, fazendo com que tudo que é superficial, sem base ou propósito, caia por terra, pois só assim constroi-se fundamentos sólidos que pavimentam o longo caminho a seguir.
Simbolicamente, o período que passamos, em média, por entre os 27 e 30 anos, 58 a 60 anos e 88 a 90 anos, são momentos marcados da vida, onde somos obrigados a descamar certos aspectos que impedem o prosseguir em nossa evolução pessoal no processo de maturidade, sejam estes internos ou externos, desde a própria personalidade, carreira, amigos, affairs e as roupas que não fazem mais sentido. São períodos marcados por reflexões profundas da própria existência em relação ao mundo.
Quando tudo parece desmoronar diante dos teus olhos, não tenha a catarse como ponto de partida, talvez esse possa ser o primeiro instinto, mas enquanto surfamos em meio ao caos, devemos ser o olho do furacão. Ali, você pode ver tudo de dentro, com certo distanciamento, em relação a tudo que está orbitando, temporariamente, a 250 km/h.
No Tarot, o Arcano XVI, A Torre (ou La Maison de Dieu, "A Casa de Deus" em baralhos tradicionais do Tarot de Marselha), entra em cena quando a estrutura atual já não suporta mais o seu crescimento, é como tentar manter um prédio em pé quando sua base é feita de areia. Em um dado momento, os remendos já não fazem mais sentido e não há outra saída que não a própria demolição. É quase como uma representação de epifania que chega repentinamente, enquanto os olhos permanecem fechados para a verdade.
Saturno trabalha de forma parecida com a carta d'A Torre. Ele destroi falsas ilusões e mentiras com as quais nos cercamos, para que, a partir da verdade genuína, algo duradouro possa, eventualmente, com trabalho, cultivo e disciplina, florescer. Percebe como funciona a lógica saturnina? É a própria agência aliada à consciência que se revela como ponta de lança, afinal, não há o que perder quando não se há o que perder.
Esse planeta velho e ranzinza faz seu retorno, insistentemente, se tivermos sorte, de trinta em trinta anos para nos indagar: "E aí? O que você quer? Você quer reclamar? Chorar? Ou você quer (também) fazer algo a respeito para mudar a sua situação?" Porque no fim, ele também nos mostra que, para além de reféns dos eventos externos que nos acometem, também somos livres para nos revolucionar e fazer do revés, sorte. Por isso (também) Saturno rege Aquário, porque Saturno se regozija em Aquário: é aí que ele goza na própria rebeldia, no ditar das próprias regras; é onde Saturno pensa adiante, vislumbrando futuros possíveis, consciente da necessidade do foco no trabalho do dia após dia, para que esse futuro promissor seja materializado. E por isso, a faca de dois gumes. Saturno é um benéfico oculto da mesma forma que Júpiter é um maléfico oculto, mas esse assunto fica pra depois.
A questão é que todas essas lições são meticulosamente programadas de forma personalizada, porque, ainda que "nenhuma" experiência seja única, nós vivemos em direção ao nosso (nodo) norte pessoal, ou seja, o caminho é único e somente meu, portanto, eu sou o caminhante que sabe os percalços e as recompensas dessa jornada. Nenhuma comparação é válida, e Saturno ensina isso.
Então, como prosseguir? Bem, eu diria que, pacientemente… Persistindo. Insistindo. Tentativa-erro-tentativa-erro.
Amanhã, o Sol se erguerá no horizonte novamente, e você tentará de novo, mas agora, com a sabedoria adquirida após tantas tentativas falhas. Saturno abençoa quem se dedica ao processo sem derrotismo, e, ainda que às vezes você venha a se sentir como um legume na panela de pressão, há muita beleza no borbulhar das ideias. E, finalmente, após um bom tempo insistindo, errando e tentando, a mensagem chega. Você sente o ímpeto de falar com aquela pessoa do outro lado da sala e vai, e ganha ouvidos, atenção, uma planta nova, uma casa nova, uma perspectiva outra das coisas que estavam acontecendo, e a partir daí, tudo muda.
O compromisso é firmado. O amor da sua vida é o amor à sua vida, como deve ser. Já os atrasos, os desvios, a tela trincada e as ausências que há muito criavam falsas ilusões sobre o tempo perdido? Estes, fossilizaram-se, junto à selva inebriante que preenche o passado, devidamente remoto.